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A obra do austríaco Christian Fennesz, músico experimental já chegando aos 15 anos de carreira, pode ser resumida bem porcamente como a arte de esconder melodias atrás de paredes e mais paredes de barulhice. Digo porcamente pois, para Fennesz, tanto a melodia quanto a barulhice são partes essenciais para a música. De fato, não há como duvidar disso, já que é impossível imaginar que esses dois elementos se separem: é meio que um caso de “bela e a fera”, um inusitado casal que não podia ser mais perfeito.



Seu último disco foi lançado no ano passado. Black Sea é apenas seu quinto álbum, e entre seu lançamento e o disco anterior foram 4 anos. Tanto tempo de produção foi prontamente justificado com as ricas e sublimes composições que fazem de Black Sea outra das obras de arte de Fennesz. É inevitável comparar seu trabalho com o de um pintor, a diferença está apenas no suporte técnico na hora de pintar atmosferas, sentimentos, paisagens, sensações; a imaginação é estimulada com tamanha força nas músicas do austríaco que é como se você estivesse mergulhado naquela parte final dos sonhos onde mundo real e inconsciente se confundem.





Em Black Sea, Fennesz explora abertamente sons de guitarra, e a partir de duas ou três notas estabelece todo o sequenciamento da música, misturado com sutis lavagens sonoras (geralmente blips e pulsos eletromagnéticos). Sua técnica em manipular os acordes que extrai da guitarra chegou a um ponto onde o último instrumento que você espera estar ouvindo é uma guitarra. Tal habilidade vem de um desejo de exploração que o músico teve sempre desde sua adolescência. Quando ainda tocava numa banda de noise-rock austríaca, no início dos anos 90, o típico som de guitarra – com solos e tudo mais – se tornou um clichê para Fennesz: “Quando comecei a me interessar por música eletrônica abandonei completamente a guitarra, mas com o passar do tempo eu senti falta de seus timbres, sua vibração, e aí quando voltei a tocar eu passava horas tirando tudo o que podia de duas notas ou três e pra mim já era o suficiente”, confessou o músico, em uma entrevista para a Radio 4 da BBC em Janeiro deste ano.



fennesz - caecilia (from endless summer)

Erroneamente rotulado por alguns críticos como “glitch”, a música de Fennesz nada tem, de acordo com o músico, de barulhos aletórios sobre uma batida de freqüência regular. “Tudo o que uso de barulho e efeitos eletrônicos com freqüências e vibrações magnéticas é pensado e repensado até eu estar satisfeito com o resultado.” Alguns podem pensar que seu approach nas canções é um tanto acadêmico, já que muito da sua obra se confunde com o trabalho de artistas como William Basinski, Alva Noto, Keith Fullerton Whitman e Philip Jeck, todos saídos de universidades e com sonoridades similares à de Fennesz. “Nunca freqüentei uma universidade de música e acredito que, embora seja muito influenciado por compositores de música clássica contemporânea, prezo muito por melodias pop quando vou compor.” Não por acaso, o músico confessa ser muito mais influenciado por Beach Boys que por Alvo Part, por exemplo.





Um forte indício dessa influência pode ser visto no disco que, de certa maneira, lhe colocou em evidência na cena da música alternativa como um todo. Endless Summer, de 2000, trabalha magistralmente o conceito de melodia e barulho em comunhão absoluta. Fennesz usou bits digitais para refratar o espectro do pop num contexto de união entre a harmonia e o caos sonoro. É um daqueles discos indiferentes ao tempo e ainda hoje soa como nenhuma outra coisa – senão o próprio Fennesz. Aqui é onde o prolífico músico começou a “rediscobrir” sua guitarra e, em faixas como a canção-título do disco, belíssimos e calorosos acordes são imersos em sutis ondas de bits digitais, e como uma bola na beira do mar, a música é levada para frente e para trás por emaranhados de pulsações e abstratos “rushes” de distorção.



fennesz - glide (from black sea)
fennesz - transit (from venice)

Mais que apenas um músico, Fennesz é um artista de fato. Sua obra é tão profunda, significativa e tocante quanto qualquer pintura, poesia, fotografia, romance, enfim. O feeling único de Fennesz para melodias é algo reconhecido até pelo mesmo; Quando questionado sobre a meticulosa atenção dada aos detalhes e a forte sensação de fluência presente em Black Sea, o músico simplesmente responde: “Ah, não sei ao certo, ao que parece tenho um estranho senso de timing e ritmo”. De fato, tudo que há de mais belo vem assim mesmo: inexplicavelmente e da maneira mais estranha possível.

 
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