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Filter: ambient  view all

A música da dupla Hammock, formada por Marc Byrd e Andrew Thompson, é mais ou menos como sugere o nome da banda. Hammock, pra quem não sabe, é o termo em inglês para “rede” no sentido daquela de dormir, que você pendura em árvores. Ouvir uma música do duo é meio como balançar numa rede no meio de uma floresta escura e úmida. Daquelas florestas que nos fascinam pela beleza e serenidade que, talvez por possuir esse contraponto denso e enigmático de uma escuridão e silêncio, sirva tão bem como algo que nos deixe seguros em si mesmos.





As sonoridades da dupla, que curiosamente é originária da terra do country – Nashville -, viajam entre o puro ambient a canções mais elaboradas com vocais, cordas e percussão, que caberiam na rotulação de post-rock. Referências óbvias que surgem ao ouvir, por exemplo, o álbum de estréia (Kenotic, de 2005), são coisas como Stars of The Lid, Flying Saucer Attack, Cocteau Twins, Boards of Canadá e Sigur Rós. Aliás, o líder da banda islandesa, Jónsi Birgisson, teve muita influência na história do duo, que fez sua primeira apresentação ao vivo como banda de abertura na performance músico/plástica do projeto paralelo de Jonsi, chamado Riceboy Sleeps (uma colaboração com o artista plástico e membro da banda Parachutes Alex Somers). A apresentação então acabou como matéria-prima do último álbum de Marc e Andrew: Maybe They Will Sing For Us Tomorrow (2008), que fora alguns overdubs inseridos posteriormente, foi gravado inteirinho ao vivo, privilegiando sons minimalistas de orientação ambient.





São cinco discos lançados em três anos, e, ironicamente, a dupla não tinha nenhuma intenção de lançar discos quando começou a compor. Kenotic nasceu quando Marc e Andrew já tinham 40 músicas no repertório e acharam então digno disponibilizar algumas delas pra outras pessoas ouvirem. As 16 músicas que passaram pela peneira e povoam a tracklist do álbum de estréia acabaram garantido à dupla respaldo crítico e de público entre os amantes de post-rock e de sons direcionados ao ambient ou shoegaze. Músicas da dupla foram usadas na cobertura das Olimpíadas de Inverno de 2006 pela Rede NBC e o disco figurou nas paradas do College Music Journal por três meses.


O novo disco da dupla está, no momento, sendo mixado e finalizado. Provavelmente o som volte a ter a orientação post-rock dos primeiros discos lançados, de acordo com o twitter dos caras. Se Marc diz que a filosofia do Hammock está em capturar os sons interiores e ver onde eles podem te levar, é fácil ver porque a música da dupla viaja entre o melancólico e o esperançoso. Afinal, nossos anseios sempre oscilam entre a harmonia e a tensão.



http://www.myspace.com/hammockmusic

A obra do austríaco Christian Fennesz, músico experimental já chegando aos 15 anos de carreira, pode ser resumida bem porcamente como a arte de esconder melodias atrás de paredes e mais paredes de barulhice. Digo porcamente pois, para Fennesz, tanto a melodia quanto a barulhice são partes essenciais para a música. De fato, não há como duvidar disso, já que é impossível imaginar que esses dois elementos se separem: é meio que um caso de “bela e a fera”, um inusitado casal que não podia ser mais perfeito.



Seu último disco foi lançado no ano passado. Black Sea é apenas seu quinto álbum, e entre seu lançamento e o disco anterior foram 4 anos. Tanto tempo de produção foi prontamente justificado com as ricas e sublimes composições que fazem de Black Sea outra das obras de arte de Fennesz. É inevitável comparar seu trabalho com o de um pintor, a diferença está apenas no suporte técnico na hora de pintar atmosferas, sentimentos, paisagens, sensações; a imaginação é estimulada com tamanha força nas músicas do austríaco que é como se você estivesse mergulhado naquela parte final dos sonhos onde mundo real e inconsciente se confundem.





Em Black Sea, Fennesz explora abertamente sons de guitarra, e a partir de duas ou três notas estabelece todo o sequenciamento da música, misturado com sutis lavagens sonoras (geralmente blips e pulsos eletromagnéticos). Sua técnica em manipular os acordes que extrai da guitarra chegou a um ponto onde o último instrumento que você espera estar ouvindo é uma guitarra. Tal habilidade vem de um desejo de exploração que o músico teve sempre desde sua adolescência. Quando ainda tocava numa banda de noise-rock austríaca, no início dos anos 90, o típico som de guitarra – com solos e tudo mais – se tornou um clichê para Fennesz: “Quando comecei a me interessar por música eletrônica abandonei completamente a guitarra, mas com o passar do tempo eu senti falta de seus timbres, sua vibração, e aí quando voltei a tocar eu passava horas tirando tudo o que podia de duas notas ou três e pra mim já era o suficiente”, confessou o músico, em uma entrevista para a Radio 4 da BBC em Janeiro deste ano.



fennesz - caecilia (from endless summer)

Erroneamente rotulado por alguns críticos como “glitch”, a música de Fennesz nada tem, de acordo com o músico, de barulhos aletórios sobre uma batida de freqüência regular. “Tudo o que uso de barulho e efeitos eletrônicos com freqüências e vibrações magnéticas é pensado e repensado até eu estar satisfeito com o resultado.” Alguns podem pensar que seu approach nas canções é um tanto acadêmico, já que muito da sua obra se confunde com o trabalho de artistas como William Basinski, Alva Noto, Keith Fullerton Whitman e Philip Jeck, todos saídos de universidades e com sonoridades similares à de Fennesz. “Nunca freqüentei uma universidade de música e acredito que, embora seja muito influenciado por compositores de música clássica contemporânea, prezo muito por melodias pop quando vou compor.” Não por acaso, o músico confessa ser muito mais influenciado por Beach Boys que por Alvo Part, por exemplo.





Um forte indício dessa influência pode ser visto no disco que, de certa maneira, lhe colocou em evidência na cena da música alternativa como um todo. Endless Summer, de 2000, trabalha magistralmente o conceito de melodia e barulho em comunhão absoluta. Fennesz usou bits digitais para refratar o espectro do pop num contexto de união entre a harmonia e o caos sonoro. É um daqueles discos indiferentes ao tempo e ainda hoje soa como nenhuma outra coisa – senão o próprio Fennesz. Aqui é onde o prolífico músico começou a “rediscobrir” sua guitarra e, em faixas como a canção-título do disco, belíssimos e calorosos acordes são imersos em sutis ondas de bits digitais, e como uma bola na beira do mar, a música é levada para frente e para trás por emaranhados de pulsações e abstratos “rushes” de distorção.



fennesz - glide (from black sea)
fennesz - transit (from venice)

Mais que apenas um músico, Fennesz é um artista de fato. Sua obra é tão profunda, significativa e tocante quanto qualquer pintura, poesia, fotografia, romance, enfim. O feeling único de Fennesz para melodias é algo reconhecido até pelo mesmo; Quando questionado sobre a meticulosa atenção dada aos detalhes e a forte sensação de fluência presente em Black Sea, o músico simplesmente responde: “Ah, não sei ao certo, ao que parece tenho um estranho senso de timing e ritmo”. De fato, tudo que há de mais belo vem assim mesmo: inexplicavelmente e da maneira mais estranha possível.

 
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