O perfil da lenda viva do rock que viaja o mundo com um único propósito: compartilhar energia via música. E pra isso, nunca dispensa uma ajudinha extra.
Quem é Damo Suzuki? Quem é esse estranho japonês de um metro e meio e que não deve pesar mais de 50 quilos? Quem é este louco de longos cabelos com fios pretos entre mechas grisalhas e que balbucia, grita, exala frases - muitas quase sem sentido algum - e que parece estar completamente absorto num transe de êxtase, a encaixar sua voz na sonoridade que quatro, três, dois, ou até mesmo um músico executa, logo atrás, no palco?
No repertório de qualquer indivíduo conhecedor de música alternativa e experimental, Damo Suzuki foi o vocalista da fase mais criativa e célebre da banda alemã Can, uma das bases fundadoras do "krautrock". Mas o que ele fez ou faz fora isso é, ainda, um mistério para muitos. E com certeza foi um choque ver aquele magro e baixinho japonês enlouquecendo em cima do palco do Teatro do SESC Prainha em Florianópolis, no dia 03 de junho.
O que se viu foi algo muito além de música como tradicionalmente conhecemos. A lógica da canção foi desconstruída, e o que prevaleceu foi a estranha lógica deste homem de 59 anos e que desde 2003 viaja o mundo por conta própria fazendo apresentações com músicos dos lugares aonde vai.
A Never Ending Tour (ou, Turnê Sem Fim), conforme batizada pelo artista, tem um objetivo bem definido: estabelecer comunicação pela música. Damo é, por assim dizer, fiel ao poder espiritual que ela possui. “A música tem a capacidade de unir músicos, público e natureza. Ela promove uma troca de energia única e poderosa”, revela, entre uma tragada e outra no seu cigarro, numa conversa no camarim antes do seu show.
Os artistas com quem toca em cada lugar que vai acabam sendo incluídos na chamada Damo Suzuki’s Network, e se tornam os “sound carriers” (carregadores de som, literalmente) de uma rede infindável de performers de todos os gêneros e estilos. Mas Suzuki deixa claro que não é qualquer um que pode ter o privilégio de se tornar um “sound carrier”: “Gosto de tocar com quem, assim como eu, tem a mente aberta e não se prende a estilos. Não importa se é uma banda de death metal ou de música africana, o importante é se entregar à música como uma forma de arte a ser feita para aquele momento”, sublinha ele, que considera o método da “composição instantânea” como a melhor forma de se fazer música.
Damo conta que nunca, antes de um show, conversou com os integrantes da banda com a qual tocaria naquele dia sobre repertório. “Adoro a idéia de simplesmente `ver o que vai acontecer`”, explica, “é como numa partida de futebol: você não vai vê-la se sabe antes o resultado.” Para ele, é muito melhor começar do zero sempre e oferecer ao público algo diferente de qualquer coisa que tenha sido feita antes.
Deve ter sido este ímpeto pelo “novo” que levou o cantor ao Can em primeiro lugar, lá nos idos de 1970. Suzuki andava chateado com sua rotina repetitiva como ator no musical “Hair” (sim, aquele mesmo dos hippies que ganhou um filme de Mike Nichols). A peça estava em cartaz por três meses num Teatro de Munique, na Alemanha. Numa de suas escapadas, resolveu cantar e fazer uma performance no lado de fora de um pequeno café da cidade.
Coincidentemente, estavam lá Holger Czukay e Jaki Leibezeit, integrantes do Can, que na época estava sem vocalista e tinha um show marcado pro mesmo dia. Os dois gostaram daquele japonês lunático pela rua e o chamaram pra banda. Horas depois, Damo estava no palco, cantando com um estilo próprio tão agressivo e marcante que alguns espectadores mais despreparados acabaram deixando o show. A banda, do contrário, adorou o que viu, e o cantor acabou “efetivado” como vocalista.
Junto dos alemães, Suzuki gravou os três discos mais influentes do Can: Tago Mago (1971), Ege Bamyasi (1972) e Future Days (1973). Seu estilo de cantar oferecia às músicas um senso de espontaneidade e imprevisibilidade como nunca vistas antes no rock progressivo. Estes álbuns feitos com Suzuki, junto dos lançamentos da época de bandas como Neu!, Tangerine Dream e Faust, ajudaram a criar uma cena musical tipicamente alemã, batizada pela imprensa inglesa como “krautrock”. O nome é uma referência pejorativa à kraut, expressão alemã que significa “pessoa” e está presente em sauerkraut (o chucrute, literalmente “repolho azedo”). No entanto, com o sucesso do gênero fora do país, o termo acabou ganhando uma interpretação positiva, até por ser ele uma forma de resistência das bandas do país ao rock mainstream de então. “O som das bandas daquela época rejeitavam a invasão da cultura anglo-americana que a Alemanha sofria depois de perder a Segunda-Guerra Mundial”, explica Suzuki. “Eu via isso no Japão também, e a idéia muito me atraiu na época.” O cantor, no entanto, logo desconversa sobre o assunto. “Não gosto muito de falar dos tempos de Can. Odeio esse lance de se prender ao passado, de se sentir nostálgico o tempo todo”, reforça Suzuki, que acredita na força do presente.
Depois de “enjoar” do Krautrock e do Can, Damo abandonou a música em 1973 e, então convertido à fé das Testemunhas de Jeová, foi morar com sua namorada na cidade de Colônia, na Alemanha. Não casou nem teve filhos, e seu período de reclusão durou quase 20 anos. Sua volta à música coincidiu com o período mais conturbado de sua vida. Suzuki foi diagnosticado no fim dos anos 80 com câncer no intestino, e seu estado de saúde era praticamente terminal. O cantor chegou a pesar apenas 28 quilos na fase mais crítica da doença. “Quando você passa por uma experiência de ‘quase-morte’ é inevitável não pensar naquilo que você mais gostaria de ter feito, das coisas que você deixou de fazer, nos lugares e pessoas que deixou de conhecer.” Esse turbilhão de pensamentos sobre o que faria se escapasse daquele infortúnio foi o principal impulso que teve pra voltar a cantar.
Felizmente, após uma cirurgia bem sucedida para a retirada do tumor, o “samurai” do rock progressivo alemão estava novamente na ativa. Seus primeiros anos de retorno à cena musical ficaram limitados a pequenos concertos na Alemanha e Áustria, sempre com músicos locais e com a mesma espontaneidade e energia de sempre. Depois, a coisa foi se ampliando, com shows nos Estados Unidos, Inglaterra, Austrália e Japão. Até antigos parceiros de criação do japonês voltaram a tocar com ele, como Jaki Leibezeit e Michael Karoli, dois ex-membros do Can.
Durante seu retorno, nunca gravou nada em estúdio que tivesse sido previamente composto. Suzuki detesta a idéia de registrar algo anacrônico e individualista como a música de estúdio representando algo que sempre vai ser executado da mesma forma. Mesmo quando alguém o convida pra fazer algo em estúdio, ele exige que tenham ali umas 30, 40 pessoas pra acompanharem a gravação. Seus discos são, na grande maioria, registros de shows, que o próprio músico vende aonde vai. No seu “quiosque” também podem ser adquiridos outros souvenirs como bottons e camisetas. “Sou meu próprio empresário”, diz, rindo, Suzuki.
Com o passar do tempo, a “Damo Suzuki Network” foi ganhando forma, angariando mais “sound-carriers”, e essa pulsante e criativa rede de artistas com mente aberta a nova experiências não para de aumentar. A Never Ending Tour é um reflexo dessa experiência de networking, de estabelecer conexões em todo lugar do planeta. “À medida que comecei a viajar fazendo minha música, fui conquistando amigos em toda parte. Chegou a um ponto em que minha casa está em todo lugar”, comenta com alegria Suzuki, que entre risadas diz que é impossível sentir saudade de casa vivendo dessa forma.
Suzuki compara a cena de hoje com a dos anos 70 com muito entusiasmo pela música feita agora: “Os músicos mais jovens tem horizontes maiores, eles experimentam muito mais com a música”. E as drogas? Nos anos 70, o consumo de drogas pesadas era muito mais forte entre os compositores, principalmente no rock progressivo, onde o Can e Suzuki estavam inseridos. “Acredito que hoje, o fato do consumo de drogas ser menor e restrito à drogas mais ‘leves’ seja melhor pra música, mas não dispenso um baseado antes e outro depois”, revela, com gargalhadas, o cantor, que justifica dizendo que isto o ajuda a ouvir melhor a execução dos instrumentos, a se conectar com mais facilidade à música e ao público.
Até quando vai sua turnê sem fim? Só a morte pode terminá-la, garante. “Quando chegar minha hora, espero morrer no palco”, diz, “nada vai me deixar mais feliz que morrer fazendo aquilo que mais gosto”. Com essa alegria e gosto pelo que faz, é difícil não se cativar pelo sorriso carismático e pela simpatia de sua expressão de “sábio oriental” fora do palco. Já dentro dele, sua insanidade e seus gritos elétricos são uma injeção absurda de vitalidade.
E então, quem é Damo Suzuki? “Eu sou Damo Suzuki”, já gritava Mark E. Smith do The Fall, com certa dose de lunacidade, na música “I Am Damo Suzuki”, faixa 12 de This Nation’s Saving Grace, álbum gravado em 1985 pela banda inglesa. “Entra a bateria, quando a bateria entra rápido e com força, bateria com choque, em direção a furiosos metais, eu sou Damo Suzuki!", assim cantava o inglês. E, de fato, ao assistir uma apresentação do cantor é difícil não se identificar e se tornar, também, um pouco Damo Suzuki. A mente se perde, as imagens se confundem, o som é absurdamente surreal, mas, ao mesmo tempo, faz todo sentido do mundo. Quando Suzuki canta suas letras confusas e dispersas, a comunicação é feita de uma forma totalmente diferente. Não existe codificação, não existem pré-conceitos. É, como nas palavras do próprio cantor, pura energia.