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da charmosa bristol para o mundo: space rock experimental, distorcido, monocórdico, gutural, abstrato, expressionista e surreal ao mesmo tempo. foram apenas quatro álbuns de estúdio, mas o suficiente para deixar um legado e tanto para a nova onda de dream pop e shoegaze do momento.



o flying saucer attack dificilmente criava canções estruturadinhas, mas quando o fazia era de fato tão impressionante que é impossível não viciar em cada uma delas e escolhê-las para a mixtape que você quer levar contigo ao túmulo. My Dreaming Hill, In The Light of Time, Beach Red Lullaby. São coisaas assim, tão dissoantes que colocam em união distorção e melodia, caos e sutileza, cordas acústicas e puro noise em reverb, que dá à esse trio tanta importância.



flutue nessa psicina de noise e abstração, sinta-se leve como numa druggy trip (idoser é isso), e depois não diga que não avisei.

wayne coyne e os lips voltaram com tudo no disco embryonic, lançado recentemente pela warner. os fãs mais fiéis e de longa data da banda obviamente estão felicissimos com o direcionamento "loucão de ácido" que a banda retomou, depois das incursões pop em yoshimi e at war with the mystics.




"i can be a frog", com a participação de karen o (yeah yeah yeahs)

el gran trunfo da trupe de oklahoma nesse disco é a total falta de identidade. prolífico beirando o absurdo, as faixas se seguem sem uma coerência aparente, misturando periodos de sons ambientes, samples pirados, barulheiras distorcidas com a bateria estourando as caixas de som e no meio alguns momentos de "sing along" que relembram o lado cancioneiro de wayne. a digestão é demorada, mas com o tempo o esforço é recompensado. embryonic é uma das mais enigmáticas e alucinógenas experiências musicais que você pode encontrar na música atual.



A música da dupla Hammock, formada por Marc Byrd e Andrew Thompson, é mais ou menos como sugere o nome da banda. Hammock, pra quem não sabe, é o termo em inglês para “rede” no sentido daquela de dormir, que você pendura em árvores. Ouvir uma música do duo é meio como balançar numa rede no meio de uma floresta escura e úmida. Daquelas florestas que nos fascinam pela beleza e serenidade que, talvez por possuir esse contraponto denso e enigmático de uma escuridão e silêncio, sirva tão bem como algo que nos deixe seguros em si mesmos.





As sonoridades da dupla, que curiosamente é originária da terra do country – Nashville -, viajam entre o puro ambient a canções mais elaboradas com vocais, cordas e percussão, que caberiam na rotulação de post-rock. Referências óbvias que surgem ao ouvir, por exemplo, o álbum de estréia (Kenotic, de 2005), são coisas como Stars of The Lid, Flying Saucer Attack, Cocteau Twins, Boards of Canadá e Sigur Rós. Aliás, o líder da banda islandesa, Jónsi Birgisson, teve muita influência na história do duo, que fez sua primeira apresentação ao vivo como banda de abertura na performance músico/plástica do projeto paralelo de Jonsi, chamado Riceboy Sleeps (uma colaboração com o artista plástico e membro da banda Parachutes Alex Somers). A apresentação então acabou como matéria-prima do último álbum de Marc e Andrew: Maybe They Will Sing For Us Tomorrow (2008), que fora alguns overdubs inseridos posteriormente, foi gravado inteirinho ao vivo, privilegiando sons minimalistas de orientação ambient.





São cinco discos lançados em três anos, e, ironicamente, a dupla não tinha nenhuma intenção de lançar discos quando começou a compor. Kenotic nasceu quando Marc e Andrew já tinham 40 músicas no repertório e acharam então digno disponibilizar algumas delas pra outras pessoas ouvirem. As 16 músicas que passaram pela peneira e povoam a tracklist do álbum de estréia acabaram garantido à dupla respaldo crítico e de público entre os amantes de post-rock e de sons direcionados ao ambient ou shoegaze. Músicas da dupla foram usadas na cobertura das Olimpíadas de Inverno de 2006 pela Rede NBC e o disco figurou nas paradas do College Music Journal por três meses.


O novo disco da dupla está, no momento, sendo mixado e finalizado. Provavelmente o som volte a ter a orientação post-rock dos primeiros discos lançados, de acordo com o twitter dos caras. Se Marc diz que a filosofia do Hammock está em capturar os sons interiores e ver onde eles podem te levar, é fácil ver porque a música da dupla viaja entre o melancólico e o esperançoso. Afinal, nossos anseios sempre oscilam entre a harmonia e a tensão.



http://www.myspace.com/hammockmusic

A escolha do disco de estréia do jj como Best New Music no site da Pitchfork é um forte reflexo dessa releitura louca e pós-moderna do “pop baleárico” que se pode ouvir nos últimos anos. Sucesso de crítica e até de público (Vampire Weekend que o diga), pessoalmente acho o gênero a trilha sonora perfeita para tardes primaveris. Os tais dos “balearic beats” nasceram nos anos 80 e até recentemente era tido como um bagulho “tosco”, dos moldes daqueles eletrônicos tropicalizados kitschy que bombavam em Ibiza misturando Ítalo Disco e House com pitadas de música latina, africana, funk, dub, e qualquer coisa que viesse de um lugar onde a temperatura média ficava nos 30°.





Depois que Paul Oakenfold popularizou a coisa, e o balearic se espalhou nas raves do começo dos anos 90, o gênero caiu em obscuridade até mais precisamente 2000, quando o coletivo de DJs australiano The Avalanches lançou o clássico dos mil samples Since I Left You. O disco é um louco passeio pelo século XX com beats de hip-hop mixados numa atmosfera de ambient ensolarado, cheio de referências que vão do cinema antigo aos sons camp dos anos 80. Foi a primeira forte releitura feita sobre o pop baleárico, e abriu caminho pra diversos grupos experimentarem com o gênero.



Bom, aí o negócio ganhou força com Vampire Weekend, El Guincho, e, pra finalmente chegar onde eu quero, com um bando de suecos malucos, que, sei lá como, conseguem inspiração pra músicas cheia de vibração veranil no meio da gélida península escandinava. Começou com o A Mountain of One, aí veio o Studio, The Embassy, e, mais recentemente, com o The Tough Alliance, que com o seu selo, chamado Sincerely Yours, lança um monte de gente com esse mesmo direcionamento musical todo ano, como o Air France e o Honeydrips. A última pérola loura, alta, viking (insira clichê escandinavo aqui) a brotar da vasta line-up de artistas do Sincerely Yours é a banda/mina/cara/fantasma jj. Assim, tudo minúsculo mesmo. E fora os números de catálogo no site do selo, não se sabe nada sobre quem faz as músicas assinadas com o nome. Só se sabe que quem canta é uma mulher. Ponto. O que não tira méritos, claro, da qualidade do som.


O primeiro lançamento do jj foi o single My Life, My Swag que, funcionando como um cartão de visitas, já mostrava a que veio o projeto. Com os vocais mergulhados em reverb como se acalorados por um sol de fim de tarde e uma melodia delicada acompanhada dos ritmos baleáricos mais convencionais (aquele beat latinizado meo cubanóide) estava claro que seria mais um projeto sueco dos bons.





Agora, o jj apresenta seu primeiro álbum, simplesmente intitulado jj nº 2. Embora de curta duração, seus 28 minutos são como uma pílula de verão instantâneo. O solo de xilofone no começo da faixa 1 funciona como aquelas manchas rosadas que aparecem no mar antes do sol nascer, e depois a seção de cordas que entra, epicamente infantil como um arranjo de Danny Elfman, conquista os ouvintes de vez nessa atmosfera suave e convidativa.


Mas nem tudo são flores coloridas a espalhar seus pólens alegremente pela relva, porque senão seria muito chato. Rola um cinismo muito forte no disco do jj, e a banda se aproveita de várias referências pra criar uma pira pós-moderna, como na música From África to Málaga, evidenciando as influências do disco, e depois em Ecstasy, uma tirada satírica sobre Lollipop de Lil’ Wayne (a música usa o mesmo sample). Também, não é qualquer disco que traz uma big folha de cannabis na capa como jj nº 2 o traz.



A sensação ao terminar o disco é que, mesmo entrando na mesma praia de som de praia dos companheiros de Sincerely Yours, o/a jj é um dos raros casos de originalidade na música hoje em dia. Quem mais conseguiria tirar Lil Wayne do gangsta rap e transformá-lo em um açucarado dream pop com ecos de ambient brian-enesco?




download de jj n° 2

O perfil da lenda viva do rock que viaja o mundo com um único propósito: compartilhar energia via música. E pra isso, nunca dispensa uma ajudinha extra.





Quem é Damo Suzuki? Quem é esse estranho japonês de um metro e meio e que não deve pesar mais de 50 quilos? Quem é este louco de longos cabelos com fios pretos entre mechas grisalhas e que balbucia, grita, exala frases - muitas quase sem sentido algum - e que parece estar completamente absorto num transe de êxtase, a encaixar sua voz na sonoridade que quatro, três, dois, ou até mesmo um músico executa, logo atrás, no palco?



No repertório de qualquer indivíduo conhecedor de música alternativa e experimental, Damo Suzuki foi o vocalista da fase mais criativa e célebre da banda alemã Can, uma das bases fundadoras do "krautrock". Mas o que ele fez ou faz fora isso é, ainda, um mistério para muitos. E com certeza foi um choque ver aquele magro e baixinho japonês enlouquecendo em cima do palco do Teatro do SESC Prainha em Florianópolis, no dia 03 de junho.





O que se viu foi algo muito além de música como tradicionalmente conhecemos. A lógica da canção foi desconstruída, e o que prevaleceu foi a estranha lógica deste homem de 59 anos e que desde 2003 viaja o mundo por conta própria fazendo apresentações com músicos dos lugares aonde vai.



A Never Ending Tour (ou, Turnê Sem Fim), conforme batizada pelo artista, tem um objetivo bem definido: estabelecer comunicação pela música. Damo é, por assim dizer, fiel ao poder espiritual que ela possui. “A música tem a capacidade de unir músicos, público e natureza. Ela promove uma troca de energia única e poderosa”, revela, entre uma tragada e outra no seu cigarro, numa conversa no camarim antes do seu show.



Os artistas com quem toca em cada lugar que vai acabam sendo incluídos na chamada Damo Suzuki’s Network, e se tornam os “sound carriers” (carregadores de som, literalmente) de uma rede infindável de performers de todos os gêneros e estilos. Mas Suzuki deixa claro que não é qualquer um que pode ter o privilégio de se tornar um “sound carrier”: “Gosto de tocar com quem, assim como eu, tem a mente aberta e não se prende a estilos. Não importa se é uma banda de death metal ou de música africana, o importante é se entregar à música como uma forma de arte a ser feita para aquele momento”, sublinha ele, que considera o método da “composição instantânea” como a melhor forma de se fazer música.





Damo conta que nunca, antes de um show, conversou com os integrantes da banda com a qual tocaria naquele dia sobre repertório. “Adoro a idéia de simplesmente `ver o que vai acontecer`”, explica, “é como numa partida de futebol: você não vai vê-la se sabe antes o resultado.” Para ele, é muito melhor começar do zero sempre e oferecer ao público algo diferente de qualquer coisa que tenha sido feita antes.



Deve ter sido este ímpeto pelo “novo” que levou o cantor ao Can em primeiro lugar, lá nos idos de 1970. Suzuki andava chateado com sua rotina repetitiva como ator no musical “Hair” (sim, aquele mesmo dos hippies que ganhou um filme de Mike Nichols). A peça estava em cartaz por três meses num Teatro de Munique, na Alemanha. Numa de suas escapadas, resolveu cantar e fazer uma performance no lado de fora de um pequeno café da cidade.



Coincidentemente, estavam lá Holger Czukay e Jaki Leibezeit, integrantes do Can, que na época estava sem vocalista e tinha um show marcado pro mesmo dia. Os dois gostaram daquele japonês lunático pela rua e o chamaram pra banda. Horas depois, Damo estava no palco, cantando com um estilo próprio tão agressivo e marcante que alguns espectadores mais despreparados acabaram deixando o show. A banda, do contrário, adorou o que viu, e o cantor acabou “efetivado” como vocalista.



Junto dos alemães, Suzuki gravou os três discos mais influentes do Can: Tago Mago (1971), Ege Bamyasi (1972) e Future Days (1973). Seu estilo de cantar oferecia às músicas um senso de espontaneidade e imprevisibilidade como nunca vistas antes no rock progressivo. Estes álbuns feitos com Suzuki, junto dos lançamentos da época de bandas como Neu!, Tangerine Dream e Faust, ajudaram a criar uma cena musical tipicamente alemã, batizada pela imprensa inglesa como “krautrock”. O nome é uma referência pejorativa à kraut, expressão alemã que significa “pessoa” e está presente em sauerkraut (o chucrute, literalmente “repolho azedo”). No entanto, com o sucesso do gênero fora do país, o termo acabou ganhando uma interpretação positiva, até por ser ele uma forma de resistência das bandas do país ao rock mainstream de então. “O som das bandas daquela época rejeitavam a invasão da cultura anglo-americana que a Alemanha sofria depois de perder a Segunda-Guerra Mundial”, explica Suzuki. “Eu via isso no Japão também, e a idéia muito me atraiu na época.” O cantor, no entanto, logo desconversa sobre o assunto. “Não gosto muito de falar dos tempos de Can. Odeio esse lance de se prender ao passado, de se sentir nostálgico o tempo todo”, reforça Suzuki, que acredita na força do presente.





Depois de “enjoar” do Krautrock e do Can, Damo abandonou a música em 1973 e, então convertido à fé das Testemunhas de Jeová, foi morar com sua namorada na cidade de Colônia, na Alemanha. Não casou nem teve filhos, e seu período de reclusão durou quase 20 anos. Sua volta à música coincidiu com o período mais conturbado de sua vida. Suzuki foi diagnosticado no fim dos anos 80 com câncer no intestino, e seu estado de saúde era praticamente terminal. O cantor chegou a pesar apenas 28 quilos na fase mais crítica da doença. “Quando você passa por uma experiência de ‘quase-morte’ é inevitável não pensar naquilo que você mais gostaria de ter feito, das coisas que você deixou de fazer, nos lugares e pessoas que deixou de conhecer.” Esse turbilhão de pensamentos sobre o que faria se escapasse daquele infortúnio foi o principal impulso que teve pra voltar a cantar.



Felizmente, após uma cirurgia bem sucedida para a retirada do tumor, o “samurai” do rock progressivo alemão estava novamente na ativa. Seus primeiros anos de retorno à cena musical ficaram limitados a pequenos concertos na Alemanha e Áustria, sempre com músicos locais e com a mesma espontaneidade e energia de sempre. Depois, a coisa foi se ampliando, com shows nos Estados Unidos, Inglaterra, Austrália e Japão. Até antigos parceiros de criação do japonês voltaram a tocar com ele, como Jaki Leibezeit e Michael Karoli, dois ex-membros do Can.



Durante seu retorno, nunca gravou nada em estúdio que tivesse sido previamente composto. Suzuki detesta a idéia de registrar algo anacrônico e individualista como a música de estúdio representando algo que sempre vai ser executado da mesma forma. Mesmo quando alguém o convida pra fazer algo em estúdio, ele exige que tenham ali umas 30, 40 pessoas pra acompanharem a gravação. Seus discos são, na grande maioria, registros de shows, que o próprio músico vende aonde vai. No seu “quiosque” também podem ser adquiridos outros souvenirs como bottons e camisetas. “Sou meu próprio empresário”, diz, rindo, Suzuki.



Com o passar do tempo, a “Damo Suzuki Network” foi ganhando forma, angariando mais “sound-carriers”, e essa pulsante e criativa rede de artistas com mente aberta a nova experiências não para de aumentar. A Never Ending Tour é um reflexo dessa experiência de networking, de estabelecer conexões em todo lugar do planeta. “À medida que comecei a viajar fazendo minha música, fui conquistando amigos em toda parte. Chegou a um ponto em que minha casa está em todo lugar”, comenta com alegria Suzuki, que entre risadas diz que é impossível sentir saudade de casa vivendo dessa forma.



Suzuki compara a cena de hoje com a dos anos 70 com muito entusiasmo pela música feita agora: “Os músicos mais jovens tem horizontes maiores, eles experimentam muito mais com a música”. E as drogas? Nos anos 70, o consumo de drogas pesadas era muito mais forte entre os compositores, principalmente no rock progressivo, onde o Can e Suzuki estavam inseridos. “Acredito que hoje, o fato do consumo de drogas ser menor e restrito à drogas mais ‘leves’ seja melhor pra música, mas não dispenso um baseado antes e outro depois”, revela, com gargalhadas, o cantor, que justifica dizendo que isto o ajuda a ouvir melhor a execução dos instrumentos, a se conectar com mais facilidade à música e ao público.





Até quando vai sua turnê sem fim? Só a morte pode terminá-la, garante. “Quando chegar minha hora, espero morrer no palco”, diz, “nada vai me deixar mais feliz que morrer fazendo aquilo que mais gosto”. Com essa alegria e gosto pelo que faz, é difícil não se cativar pelo sorriso carismático e pela simpatia de sua expressão de “sábio oriental” fora do palco. Já dentro dele, sua insanidade e seus gritos elétricos são uma injeção absurda de vitalidade.



E então, quem é Damo Suzuki? “Eu sou Damo Suzuki”, já gritava Mark E. Smith do The Fall, com certa dose de lunacidade, na música “I Am Damo Suzuki”, faixa 12 de This Nation’s Saving Grace, álbum gravado em 1985 pela banda inglesa. “Entra a bateria, quando a bateria entra rápido e com força, bateria com choque, em direção a furiosos metais, eu sou Damo Suzuki!", assim cantava o inglês. E, de fato, ao assistir uma apresentação do cantor é difícil não se identificar e se tornar, também, um pouco Damo Suzuki. A mente se perde, as imagens se confundem, o som é absurdamente surreal, mas, ao mesmo tempo, faz todo sentido do mundo. Quando Suzuki canta suas letras confusas e dispersas, a comunicação é feita de uma forma totalmente diferente. Não existe codificação, não existem pré-conceitos. É, como nas palavras do próprio cantor, pura energia.

o kammerflimmer kollektief é o projeto de um trio alemão de karlsruhe - heike aumuller, thomas weber e johannes frisch - que mantém uma espécie de line up flutuante com músicos diversos ajudando nas gravações e apresentações. o som, notadamente improvisacional, é um dos mais incríveis e originais no que se faz de jazz atualmente. com bases eletrônicas e incorporações de gêneros que vão do drone ao kraut rock, o trio cria abstrações sonoras de natureza meio "no-wave" e seu jazz consegue ainda assim permanecer com um apelo pop, sempre baseado em melodias.





notáveis influências de músicos vanguardistas como john zorn são facilmente identificáveis. é consideravelmente vasta a amplitude de experimentações que o grupo implica às sonoridades de saxofone e de outros instrumentos de sopro. nas incursões eletrônicas, a pegada downtempo predomina, e tudo acaba banhado por arranjos de cordas de um requinte super arraigado em regionalismos europeus como a música celta.





com sete álbuns lançados desde 1999, a banda figura constantemente nas listas de melhores gravações do ano em publicações mais focadas em música experimental, como a inglesa wire. vale conferir o trabalho dos caras e adentrar nas pirações da banda.



kammerflimmer kollektief - cicadidae (cd/lp)

A obra do austríaco Christian Fennesz, músico experimental já chegando aos 15 anos de carreira, pode ser resumida bem porcamente como a arte de esconder melodias atrás de paredes e mais paredes de barulhice. Digo porcamente pois, para Fennesz, tanto a melodia quanto a barulhice são partes essenciais para a música. De fato, não há como duvidar disso, já que é impossível imaginar que esses dois elementos se separem: é meio que um caso de “bela e a fera”, um inusitado casal que não podia ser mais perfeito.



Seu último disco foi lançado no ano passado. Black Sea é apenas seu quinto álbum, e entre seu lançamento e o disco anterior foram 4 anos. Tanto tempo de produção foi prontamente justificado com as ricas e sublimes composições que fazem de Black Sea outra das obras de arte de Fennesz. É inevitável comparar seu trabalho com o de um pintor, a diferença está apenas no suporte técnico na hora de pintar atmosferas, sentimentos, paisagens, sensações; a imaginação é estimulada com tamanha força nas músicas do austríaco que é como se você estivesse mergulhado naquela parte final dos sonhos onde mundo real e inconsciente se confundem.





Em Black Sea, Fennesz explora abertamente sons de guitarra, e a partir de duas ou três notas estabelece todo o sequenciamento da música, misturado com sutis lavagens sonoras (geralmente blips e pulsos eletromagnéticos). Sua técnica em manipular os acordes que extrai da guitarra chegou a um ponto onde o último instrumento que você espera estar ouvindo é uma guitarra. Tal habilidade vem de um desejo de exploração que o músico teve sempre desde sua adolescência. Quando ainda tocava numa banda de noise-rock austríaca, no início dos anos 90, o típico som de guitarra – com solos e tudo mais – se tornou um clichê para Fennesz: “Quando comecei a me interessar por música eletrônica abandonei completamente a guitarra, mas com o passar do tempo eu senti falta de seus timbres, sua vibração, e aí quando voltei a tocar eu passava horas tirando tudo o que podia de duas notas ou três e pra mim já era o suficiente”, confessou o músico, em uma entrevista para a Radio 4 da BBC em Janeiro deste ano.



fennesz - caecilia (from endless summer)

Erroneamente rotulado por alguns críticos como “glitch”, a música de Fennesz nada tem, de acordo com o músico, de barulhos aletórios sobre uma batida de freqüência regular. “Tudo o que uso de barulho e efeitos eletrônicos com freqüências e vibrações magnéticas é pensado e repensado até eu estar satisfeito com o resultado.” Alguns podem pensar que seu approach nas canções é um tanto acadêmico, já que muito da sua obra se confunde com o trabalho de artistas como William Basinski, Alva Noto, Keith Fullerton Whitman e Philip Jeck, todos saídos de universidades e com sonoridades similares à de Fennesz. “Nunca freqüentei uma universidade de música e acredito que, embora seja muito influenciado por compositores de música clássica contemporânea, prezo muito por melodias pop quando vou compor.” Não por acaso, o músico confessa ser muito mais influenciado por Beach Boys que por Alvo Part, por exemplo.





Um forte indício dessa influência pode ser visto no disco que, de certa maneira, lhe colocou em evidência na cena da música alternativa como um todo. Endless Summer, de 2000, trabalha magistralmente o conceito de melodia e barulho em comunhão absoluta. Fennesz usou bits digitais para refratar o espectro do pop num contexto de união entre a harmonia e o caos sonoro. É um daqueles discos indiferentes ao tempo e ainda hoje soa como nenhuma outra coisa – senão o próprio Fennesz. Aqui é onde o prolífico músico começou a “rediscobrir” sua guitarra e, em faixas como a canção-título do disco, belíssimos e calorosos acordes são imersos em sutis ondas de bits digitais, e como uma bola na beira do mar, a música é levada para frente e para trás por emaranhados de pulsações e abstratos “rushes” de distorção.



fennesz - glide (from black sea)
fennesz - transit (from venice)

Mais que apenas um músico, Fennesz é um artista de fato. Sua obra é tão profunda, significativa e tocante quanto qualquer pintura, poesia, fotografia, romance, enfim. O feeling único de Fennesz para melodias é algo reconhecido até pelo mesmo; Quando questionado sobre a meticulosa atenção dada aos detalhes e a forte sensação de fluência presente em Black Sea, o músico simplesmente responde: “Ah, não sei ao certo, ao que parece tenho um estranho senso de timing e ritmo”. De fato, tudo que há de mais belo vem assim mesmo: inexplicavelmente e da maneira mais estranha possível.

baseada no brooklyn, em NY (um rico celeiro para a música - os liars e o grizzly bear são de lá, por exemplo), essa banda é meio que o projeto de um homem só, chamado dave longstreth. ainda esse mês vai ser lançado "bitte orca", o sexto disco. o desertor do curso de música na yale reuniu novamente as mocinhas angel e amber pra o ajudarem nos vocais, combinação que deu muito certo no disco anterior, "rise above", onde foram feitas "rendições" inusitadas à músicas do álbum "damaged" da banda seminal do hard-core black flag.






embora bem mais acessível nesse novo disco, o dirty projectors consegue manter seu aspecto essencial: a originalidade; não há como confundir as sonoridades criadas pela banda com qualquer outra. dentro de bitte orca, "stillness is the move" aparece como a canção-chefe e desponta sem dúvida como uma favorita a música do ano.



dirty projectors - stillness is the move



o casal windy & carl é um velho conhecido dos amantes de música experimental. na ativa desde 1993, os dois perambularam por diversos selos ultra-undergrounds americanos até estabelecerem moradia no aconchegante albergue para músicos experimentais da Kranky, selo tradicional de chicago. embora suas influências e sonoridades principais se limitassem ao shoegaze/dream-pop típico da 4ad em seus primeiros trabalhos, os dois gradualmente foram evoluindo e ampliando mais seu leque exploratório quando se trata em abusar dos efeitos em guitarra, reverbs e sobreposição de camadas.



eventualmente, o som foi ganhando uma forma mais minimalista, com ecos da ambient music feita nos anos 70 e 80 por gente como cluster e brian eno. essencialmente atmosférica, a música de windy & carl busca de certa maneira nos levar por meio de sonoridades abstratas a criar imagens de isolamento e reclusão, como se enfiar embaixo das cobertas, mergulhar no oceano ou até mesmo se perder numa vasta geleira.



já são 4 os discos lançados pela kranky; o último, do ano passado, se chama "songs of the broken hearted" onde o que se ouve é pura ambient music, com densas camadas de notas de guitarra em constância, amplificadas por delays, reverbs e efeitos eletrônicos analógicos como e-bow. não se pode ignorar a influência da 4ad também aqui, principalmente nas faixas cantadas, onde mais notas entram em jogo na melodia e a voz modificada de windy lembra uma espécie cocteau twins alienígena.



windy & carl - the same moon & stars

 
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